Legião Urbana
Legião Urbana
R$ 52,00
Selo/Gravadora: EMI
Ano de lançamento: 1984
Ano de prensagem: 1984
Origem: Brasil
Peso: 200,00g
Situação Capa: VG - Muito Bom
Situação Vinil: VG - Muito Bom
Tags: Dado Villa-Lobos Marcelo Bonfá Renato Russo Rock

Primeira prensagem, com encarte.
É dura hoje a tarefa de quem propõe a defesa da Legião Urbana. Logo vem a pecha de maluco, sensível por demais, cabeção etc. Há quem se encabule ao elogiar a banda, olhos para o chão e voz fraca, como se a afinidade afetiva/musical com os caras da velha nova Meca brazuca empreendesse uma viagem perdida, inocente, pueril. Bobagem, grossa bobagem. Nem todo o messianismo a rondar o grupo é capaz de fazer sombra ao seu talento brutal, ao bruto quebrar de seus versos; a identificação coletiva com um nome não permanece se desprovida da solidez sincera de um discurso. E todo verbo solto-solitário há de se perder na correria fria de cada dia solto. E toda poesia órfã de um coração tem o caminho do nada. Não estou aqui para falar de música nem de seus tentáculos, justificar uma presença no topo de meu ranking. Idiossincracias são muletas providenciais, sempre.

Mas posso falar da música, posso não?

E música é melodia, não? Penso que sim, quero crer que sim.

É preciso.

E é constrangedor cantarmos juntos aquela canção, não? Devemos perguntar o que nos acontece, baixinho e secretamente. Não vou calar a minha voz por tua causa. A tua causa espreme-se em um quartinho nos fundos da casa.

Batendo bola em outro terreiro, as canções estão aí, mas não prontas e acabadas. Não enquanto garotos espinhudos puderem estourar seus pulmões pouco gastos, a lágrima segura no último minuto do jogo, transformando-as e transportando-as para um universo único de intimidade. Aqui está a chave, escandalosamente colocada em nossos colos: o meu canto é o teu canto quando você o canta. Simples, bonitinho e genial. Tente fazer. Tente.

Se a obra de um conjunto não deve ser avaliada fora de seu contexto, tampouco deve ser julgada somente por ele. Legião Urbana é produto orgulhoso dos anos 70/80, de uma Brasília já mítica, de uma era com cheiro de carro novo, virgenzinha, punk que só ela. E isto está em cada sulco de seus vinis, Mas não o impede de ser atemporal em seu discurso pela ética, em sua passagem gradativa do do it yourself roqueiro para o instrumental lírico e pungente de seus derradeiros discos. E foi esta capacidade de mudar a sua música sem afastar-se da beleza de seu discurso que fez do grupo um marco de gerações várias, aquele irmão mais velho e sábio de madrugadas antológicas. Amadurecer sem perder a velha garra, experimentar sem trair a sua trajetória, batalhar a luta de poucas glórias sem ser caricato: muita gente se perdeu em caminhos semelhantes. Nossos amigos legionários, não.

Fácil entender o motivo.

A entrega. A entrega é o segredo.

Ela está na alma de cada canção da turma, fresca como nas superquadras juvenis. Manter tal frescor com a chegada das marcas profundas, afastando-se da pieguice simplória: quantos podem sacar arma assim? Ah, problemas instrumentais, técnicos, de produção? Problemas imaginários ao tratarmos de mais um grupo a forjar-se no duro testamento daquele verão londrino, preocupação voltada para o coração de seus pares. A frieza dos manuais podia esperar.

Chato sacar que, melancolicamente, o incômodo maior se dê por patéticos grilos, ranços de um rock movido a heróis turbomachinados, um rejeitar caquético e mecânico de demonstrações abertas de sensibilidade. Como então falar de amor, meu irmão?

A Legião Urbana está morta.

E cá dentro permanece.


O teu peito, como vai?


Caio Dias